Palco, Performance. O ser arte, o viver da arte ou talvez a simples permissão para que a arte continue a viver do que um dia foi tecido e ainda pulsa.
Através do recorte pessoal e deste olhar que sente, a residência Memória em Cena foi para mim a experiência de performar a própria Vida.
Sempre que meu corpo veste-se daquele velho casaco tricotado pelas mãos de minha avó; feito especialmente para mim e entregue em mãos. Sinto como se as memórias me abraçassem no presente. O casaco que me aquece em dias de frio, também é a lembrança que me acolhe.
O corpo como espaço-sujeito, onde a mulher guardiã desta memória é consciente de seu movimento e fluxo contínuo. Ao contrário da memória vista apenas como um reflexo do passado ou fragmentos soltos no tempo.
No palco deste espetáculo e obra prima chamada Vida – própria, pessoal e intransferível. Residem memórias, histórias e vidas moldadas à mão. Personagens reais transitam entre tantos papéis, cenas e retratos de um sentir: Bonecos, marionetes, vidas, cortinas que se abrem e se fecham dia após dia, tendo como pano de fundo o curso de um rio que segue o seu caminho natural. Este rio de memórias percorreu-me durante a residência. Sempre soube da sua existência, mas quase sempre tentava contê-lo. Aqui falo do rio, e não das memórias. Porque, no fundo, quando definitivamente exploramos este habitat de memórias chamado corpo, no final deste percurso há sempre um rio das emoções que nos movem.
E assim residi neste espaço de tempo com Sandra Lessa e grupo, e deixei a correnteza fluir, inundando todos os espaços do meu corpo; teto acima e chão abaixo deixei a água cair e inundar a casa. Resistindo outra vez.
Resistir e sobreviver me parece sempre um dos maiores dons herdados pelas artistas, sobretudo artistas mulheres.
Sustentar o corpo erguido ainda que cansado, caminhar em linha reta, em busca de um sonho lúcido e mais bonito que possa ser vivido coletivamente, é nada menos que desafiar-se. Ao invés de apenas sobrevivermos outra vez, nós, mulheres, juntas e conectadas, da palavra ARTE somos capazes de extrair toda a sua essência e transformá-la em oração de cura e manifestação de nós mesmas, buscando no conjunto sempre o mesmo final, ou seja. Novas formas de olhar e desejar o mundo, mais belo e harmônico, o ser feminino na arte. A arte de Supervivermos.
De tantas memórias que moldaram este corpo-mulher, foi bem aqui neste espaço-corpo, que a residência proposta por Sandra Lessa – Memória em Cena, criou cena em mim. Ouvindo outros corpos e outras mulheres, meu corpo fez-se casa finalmente. Habitat e morada: de terra, água, fogo e ar, reunindo todos os elementos e forças para resistir mais uma vez comigo mesma. No silêncio interior das memórias, entre quatro paredes com as mãos na massa, fui moldando em gestos fragmentos deste meu sentir, dando vida a uma coleção de peças moldadas em papel – maché, retrato de meu ofício e saber, sob o título.
Corpo Entre Quatro Paredes.
De um corpo MULHER e também ARTISTA residindo em sua própria história. Natasha Faria
